Hokum: O Pesadelo da Bruxa, é um filme de terror e mistério lançado em maio de 2026. Ele acompanha Ohm Bauman (interpretado por Adam Scott), um escritor de horror cínico e alcoólatra, que viaja ao hotel Winthrop numa região rural da Irlanda para espalhar as cinzas de seus pais.

Em sua chegada, Bauman faz pouco caso de boatos locais sobre a suíte maldita do hotel (que supostamente abrigaria uma bruxa), mas logo passa a vivenciar fenômenos perturbadores.

O elenco inclui Florence Ordesh como Fiona, a funcionária do bar, David Wilmot como o excêntrico Jerry, um eremita local, e outros nomes como Peter Coonan e Will O’Connell. O diretor é o irlandês Damian McCarthy, conhecido por filmes de baixo orçamento como Caveat (2020) e Oddity (2024). Hokum é seu terceiro longa, onde busca fundir folclore irlandês com a estética dos filmes de hotel assombrado.

O verdadeiro protagonista

A fotografia de Hokum, assinada por Colm Hogan, é um dos pontos fortes. Os enquadramentos usam profundidade de campo e espaços claustrofóbicos para intensificar a tensão, incluindo corredores estreitos, ângulos oblíquos e iluminação sutil.

O hotel em si se torna um personagem. Seus móveis antigos, corredores e tantos outros detalhes compõem um bom cenário. O design de som também é um grande trunfo técnico. Hokum constrói uma paisagem sonora minuciosa e efeitos propositais que criam um clima de tensão constante.

No entanto, o filme tem um primeiro ato arrastado, demorando para estabelecer o mistério e o estado mental de Bauman. Já o segundo ato acelera quando surgem os segredos do hotel, mas então vêm os flashbacks e explicações, desacelerando novamente. Em contrapartida, há cortes rápidos nos sustos para manter o coração na boca do espectador. Em resumo, a montagem é tecnicamente competente, mas o fluxo narrativo poderia ser mais equilibrado.

Um hóspede difícil de decifrar

Adam Scott interpreta um protagonista amargo, estranho e arrogante. O que funciona bem até certo ponto. Ocorre que o problema não está exatamente na atuação, mas na forma como o personagem foi escrito. Em vários momentos, Ohm Bauman parece distante demais, travado e inexpressivo, inclusive nos momentos mais tensos, e algumas falas soam artificiais ou exageradamente excêntricas.

Por outro lado, a química com o restante do elenco funciona bem, especialmente nas cenas ao lado de Fiona e Jerry, que ajudam a trazer pequenos momentos de humor ou tensão dentro da história.

Uma encruzilhada de narrativas

Em vários momentos o filme realmente consegue criar cenas de terror muito fortes e memoráveis. Algumas sequências específicas, como as que ocorrem no “quarto proibido” e no subsolo do hotel, mostram que o diretor sabe construir tensão e desconforto visual.

O problema é que o filme muda de direção o tempo inteiro. Em certos momentos, parece um terror gótico clássico. Em outros, vira quase um suspense investigativo sobre desaparecimentos. E em algumas partes, lembra até aqueles filmes de sobrevivência em espaços fechados.

Essa mistura acaba deixando a narrativa um pouco confusa, como se cada parte do filme estivesse tentando contar uma história diferente.

O labirinto dos significados

Hokum também aposta muito em simbolismos e imagens estranhas para construir sua atmosfera. O hotel funciona quase como um labirinto psicológico, cheio de elementos que parecem esconder significados por trás de cada cena.

Ao longo do filme aparecem figuras perturbadoras, animais mortos e diversos reflexos e sombras espalhados pela fotografia. Tudo isso parece sugerir que existe algo mais profundo acontecendo por trás da história principal.

Mas também há exageros nesse simbolismo. Em vários momentos, Hokum parece lançar ideias e metáforas sem realmente desenvolver ou conectar tudo de forma clara.

Já em outros momentos, o filme quer explicar demais. Algo importante acontece, e logo depois explica novamente através de diálogos, flashbacks ou símbolos muito diretos, causando a impressão de que o filme não confia totalmente na capacidade do espectador de interpretar sozinho o que está acontecendo.

No fim das contas…

O desfecho de Hokum pode agradar alguns e outros não, pois não oferece respostas óbvias demais. Trata-se de um filme que busca fugir dos clichês.

Para quem gosta de um terror mais psicológico e interpretativo, esse filme certamente será um prato cheio.

O título no Brasil, “O Pesadelo da Bruxa”, também pode enganar o espectador sobre onde se encontra o verdadeiro pilar da trama.

Minha avaliação: 7/10


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Um susto inusitado

Penso que um dos pontos críticos de Hokum é a tentativa de suicídio de Bauman, e na forma como ela acontece dentro da narrativa.

Ao longo da maior parte do filme, o roteiro quase não desenvolve de maneira clara um estado de depressão profunda ou um comportamento autodestrutivo que justifique uma decisão tão extrema.

Por isso, quando a tentativa de suicídio acontece, a cena surge de maneira abrupta, como se viesse de outro filme. Falta uma construção gradual do sofrimento psicológico de Bauman, mas o filme demora demais para explorar isso de forma concreta.

Outro ponto que estranhei bastante é a forma como a história reage ao acontecimento logo depois. Após sobreviver, Bauman retorna ao hotel e a narrativa continua como se nada extremamente grave tivesse acontecido.

Os outros personagens não demonstram nenhum impacto emocional, e o próprio protagonista parece voltar rapidamente ao estado “normal” do filme.

A tentativa de suicídio parece uma mera ferramenta dramática para movimentar a trama do que uma consequência natural da jornada emocional do personagem. O filme realmente não se preocupa em desenvolver essas emoções de maneira profunda e orgânica.

Onde o horror perde o fôlego

Outro ponto crítico é o desaparecimento de Fiona. O mistério em torno desse evento era mais interessante que a explicação. A cena em que Bauman encontra seu corpo no elevador causa um impacto inicial, e nesse momento pensei se tratar de algum tipo de “oferenda” à suposta bruxa.

Porém, quando o filme revela o que ocorreu e tenta explicar as motivações fracas e exageradas do vilão, parte da força do horror acaba diminuindo. A funcionária morta recebe pouco desenvolvimento ao longo da história, então quando o roteiro tenta dar mais peso emocional a esse evento, falta uma conexão humana mais forte para sustentar o drama.

Essa sequência acaba sendo muito mais uma quebra de atmosfera do que uma grande virada narrativa.

Bauman encontra o corpo de Fiona no elevador (Hokum – 2026)

A sombra da dúvida

A revelação de que Bauman foi drogado pelo funcionário do hotel é o verdadeiro plot twist, e dá margem a várias suposições sobre os eventos sobrenaturais. Será que foi tudo real ou apenas ilusão, ou um pouco dos dois?

O filme sugere que o protagonista passou por uma espécie de viagem psicológica extrema, onde os fantasmas e visões serviram para fazê-lo confrontar a culpa que carregava desde a infância.

Existe inclusive uma cena importante envolvendo o fantasma da mãe, que muitos interpretam como o momento em que Bauman finalmente decide parar de fugir do passado e lutar pela própria vida, em vez de continuar se destruindo emocionalmente.

Em entrevista ao CinemaBlend, Damian McCarthy revelou que deixou pistas visuais ao longo do filme para ajudar o espectador a diferenciar determinados acontecimentos daquilo que pode fazer parte da percepção alterada de Bauman. Segundo o diretor, os reflexos nos óculos do protagonista funcionam como uma das chaves para essa interpretação.

O filme brinca com essa ambiguidade de forma proposital para gerar interpretações e mantê-lo na mente do espectador por muito tempo.

Essa reviravolta pode frustrar muitas pessoas que esperavam ver um desfecho assumidamente sobrenatural e direto. Mas penso que esse caminho combina melhor com a proposta de um terror mais psicológico, que é o caso de Hokum.

Além disso, o plot twist funciona porque o filme prepara o terreno para isso. Há um contexto prévio aqui envolvendo o alucinógeno e o funcionário do hotel, o que torna esse caminho aceitável.

Quando o pesadelo acaba

Depois de toda a experiência caótica dentro do hotel, vemos Bauman terminando o livro que está escrevendo, seguido daquela cena estranha no deserto, onde dois personagens se abraçam em um cenário vazio e melancólico.

Uma interpretação direta é que esse cenário representa o estado psicológico de Bauman. O abraço seria uma aceitação do próprio sofrimento. Como se aqueles personagens fossem reflexos de sua mente, presos para sempre aos mesmos traumas, culpas e medos. Um desfecho compatível com tudo o que foi construído até ali.

Meu veredito final é que vale a pena assistir Hokum, pois é um filme excelente em criar uma atmosfera tensa, apesar das dificuldades em manter uma narrativa coesa em várias momentos.

Reprodução da cena final de Hokum (2026)


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