Backrooms (2026), lançado pela A24, marcou a estreia de Kane Parsons na direção de longas-metragens. O jovem cineasta ganhou notoriedade na internet ao criar a série de curtas The Backrooms no YouTube, baseada na famosa creepypasta dos “espaços liminares” que se tornou um fenômeno mundial.
Com um orçamento modesto para os padrões de Hollywood, mas contando com o apoio de produtores experientes como James Wan (Invocação do Mal) e Shawn Levy (Stranger Things), o filme transformou um dos mitos mais populares da internet em uma produção cinematográfica de grande escala.
No elenco, destacam-se Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão), Renate Reinsve (A Pior Pessoa do Mundo), Mark Duplass, Finn Bennett e Lukita Maxwell.
Uma Porta Para o Desconhecido
Ambientado em 1990, o filme acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor), um ex-arquiteto falido dono de uma loja de móveis, e sua terapeuta Mary Kline (Renate Reinsve). Clark, afundado em alcoolismo e crises pessoais, descobre uma passagem secreta no porão da loja que leva a uma dimensão paralela. Um labirinto surreal de cômodos amarelos interconectados, as “backrooms”.
Inicialmente sozinho explorando esse mundo estranho, Clark retorna perturbado e tenta convencer Mary do ocorrido. Quando outros desaparecimentos ocorrem, Mary decide entrar nesse mundo também, numa busca para encontrar Clark.
O filme explora como essa experiência transforma psicologicamente os personagens, mantendo mistério e tensão sobre o que se passa nos corredores infinitos.
A Arquitetura do Medo
Do ponto de vista técnico, Backrooms é facilmente um dos filmes de terror mais impressionantes de 2026, e a direção de Kane Parsons demonstra maturidade surpreendente para um cineasta tão jovem.
A fotografia aposta em enquadramentos amplos para transmitir uma constante sensação de isolamento e desorientação.
A iluminação, dominada por luzes fluorescentes amareladas, cria um ambiente desconfortável que remete diretamente às imagens que popularizaram a lenda dos Backrooms na internet.
O grande destaque da produção está na construção dos cenários. Em vez de depender exclusivamente de computação gráfica, a equipe construiu enormes ambientes físicos para representar o labirinto de salas e corredores, tornando a experiência mais realista e imersiva.
O trabalho de som também merece atenção. O zumbido constante das lâmpadas, os ecos distantes e os longos momentos de silêncio criam uma atmosfera de tensão permanente. A trilha sonora e sons ambientes complementam essa sensação de desconforto sem exagerar nos sustos tradicionais.
Antecessores de Backrooms
A proposta do filme dialoga com diversas obras que exploraram conceitos semelhantes ao longo das últimas décadas. O clássico Cube (1997), por exemplo, já colocava seus personagens presos em um labirinto.
Produções mais recentes como Viveiro (2019) e Skinamarink (2022) também exploraram o desconforto causado por ambientes transformados em armadilhas psicológicas. Já a série Ruptura utiliza corredores intermináveis e espaços corporativos para criar uma atmosfera de estranhamento.
A diferença é que Backrooms reúne elementos presentes em todas essas obras e os combina em uma experiência própria, baseada na sensação de estar perdido em um lugar que parece familiar, mas que desafia completamente a lógica.
O Preço de Revelar Demais
A sensação constante de que algo está errado, mesmo quando nada acontece, é um dos maiores acertos do filme.
Por outro lado, a obra perde parte de sua força quando tenta explicar excessivamente o próprio mistério. Conforme a trama avança, o foco deixa de estar nos corredores e na estranheza daquele universo para se concentrar nos traumas e conflitos emocionais dos personagens.
Embora existam temas interessantes sendo abordados, o roteiro não dedica tempo suficiente para desenvolvê-los.
Essa mudança de direção afeta diretamente o terror. Em vez de aprofundar a sensação de incompreensão que tornava os Backrooms tão fascinantes, o filme passa a buscar respostas e interpretações para acontecimentos que talvez funcionassem melhor sem explicação.
A mitologia desse universo é mais eficaz quando é sentida do que quando é detalhada. Afinal, o medo nasce justamente da possibilidade de que algumas perguntas nunca tenham resposta.
Essa abordagem aproxima o filme de uma tendência bastante comum no terror contemporâneo, onde o trauma psicológico se torna o principal elemento narrativo. Assim como ocorreu em Hokum (2026), os eventos sobrenaturais acabam funcionando como reflexos dos conflitos internos dos personagens.
Ainda assim, Backrooms permanece como uma experiência visual e sensorial marcante. Mesmo sem desenvolver todo o potencial de sua premissa, o filme revela o talento de Kane Parsons para criar atmosferas inquietantes e sugere que existe espaço para explorar esse universo em futuras continuações.
Se uma sequência conseguir preservar o mistério que tornou os Backrooms tão fascinantes, ao mesmo tempo em que aprimora o desenvolvimento dos personagens e da narrativa, o resultado poderá ser ainda mais impactante.
Minha avaliação: 7 / 10

O Elo Perdido da Narrativa
O filme pretende mostrar que Clark passa por uma transformação profunda após sua permanência nos Backrooms, mas também não fica claro de quanto tempo foi esse salto temporal até ele ser encontrado por Mary. Então fica a ideia de que essa mudança foi muito rápida.
No início da história, Clark é retratado como um homem frustrado, fracassado profissionalmente e emocionalmente desgastado, mas nada indica que ele esteja à beira de um colapso mental ou desenvolvendo algum tipo de obsessão capaz de justificar seu comportamento posterior.
De repente, Clark passa a agir como alguém que não apenas conhece os Backrooms, mas também compreende suas regras, seus perigos e até mesmo seus significados simbólicos. Além disso, já demonstra claros sinais de instabilidade psicológica.
O problema é que o filme não trabalha adequadamente esse ponto, deixando a impressão de que falta um trecho importante da jornada do personagem. Em vez de acompanhar a transição de um homem frustrado para alguém consumido por aquele universo, o público recebe duas versões do personagem. Esse é o mesmo problema observado em Hokum (2026).
Isso faz com que algumas cenas de violência gráfica também pareçam forçadas. Como o trecho em que Clark corta o couro cabeludo de uma das réplicas e põe na cabeça de Mary. Ou quando corta o pedaço de outra réplica e diz que são comestíveis.
E justamente por ser o personagem central da narrativa, essa lacuna acaba enfraquecendo parte importante do impacto emocional da história.
Muito Além de um Monstro
Quanto à criatura dos labirintos, o chamado Pirate Clark, muitos o consideraram visualmente tosco, mas seu design parece fazer sentido dentro da narrativa, representando uma manifestação física distorcida do protagonista.
O filme sugere que Clark já havia encontrado a criatura anteriormente e, de alguma forma, aprendido a conviver com ela. Então ocorre a cena em que ela encontra Clark e Mary em um dos cômodos e o ataca, mordendo seu pescoço, dando a entender que ele foi morto.
Esse ataque levanta algumas interpretações. Uma delas é que Clark apenas acreditava ter compreendido os Backrooms, quando na verdade jamais esteve no controle da situação. Outra ideia é que a presença de Mary representa uma ruptura no equilíbrio estabelecido entre Clark e aquele universo, levando a criatura a enxergá-lo de forma diferente.
Há ainda a hipótese de que o ataque seja uma metáfora para a incapacidade do protagonista de escapar dos próprios conflitos internos.
Essa sequência funciona como um poderoso momento de tensão e gera inúmeras discussões. No entanto, a sensação é que a discussão não surge pela riqueza das respostas oferecidas pelo roteiro, mas pela quantidade de lacunas que ele deixa para o público preencher por conta própria.
Quando o Mistério Muda de Escala
Após escapar dos corredores infinitos, Mary é encontrada por um grupo de cientistas ligados à Async, organização que aparentemente já conhece a existência daquela dimensão e a estuda há algum tempo. Em vez de encerrar o mistério, a sequência amplia o universo da história e introduz novas perguntas sobre a origem dos Backrooms, o número de pessoas desaparecidas e o verdadeiro papel dessa organização.
Essa escolha altera o foco da narrativa. Durante quase todo o filme, acompanhamos uma história centrada na obsessão de Clark e em sua deterioração psicológica. Nos minutos finais, porém, a trama deixa de ser apenas o drama de um homem consumido por uma realidade incompreensível para sugerir um universo muito maior, capaz de servir como base para futuras continuações.
Por um lado, essa decisão é interessante porque evita explicar completamente os Backrooms e preserva parte do mistério que tornou esse universo tão fascinante desde sua origem na internet. A Async também não parece possuir todas as respostas, o que impede que o filme transforme o desconhecido em uma simples explicação científica.
Por outro lado, a introdução desse novo elemento acaba tirando um pouco do impacto da narrativa. Depois de dedicar quase todo o tempo ao conflito de Clark e Mary, o roteiro apresenta uma organização secreta, novos personagens e uma série de questionamentos.
Ainda assim, o plano final consegue recuperar parte da atmosfera inquietante presente na primeira metade do filme. Ao sugerir que talvez nem mesmo a fuga de Mary represente um verdadeiro retorno à realidade, Backrooms encerra sua história da mesma forma como começou: deixando o espectador em dúvida sobre o que é real e sobre onde, de fato, termina aquele labirinto.

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